writings

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(exposição Museu Geológico)

Virgulei sem saber como. Vesti-me dessa espécie de pausa que me grita ao acordar. Virgulei para separar a palavra da cor que se aplana bem na minha frente. Joguei o vermelho quente por cima das mantas em cima da minha cama. Sei que só uma vírgula pode pausar bem um texto, e assim enfatizo delicadamente o que encontro na alma, cada vez mais mecânica, que se move de acordo com a sua vontade independente de mim, do meu buscar.Atiro a vírgula aqui tal como atiro a tinta nos desenhos cromáticos. São momentos de concentração, de desprendimento da forma, de colocar-me toda nesse gesto. Uma espécie de nervosismo antecede esse rito, esse enfatizar de tudo o que posso e quero.Conheci um senhor que escrevia sem usar vírgula, e escrevia, porque a ausência é muitas vezes mais forte que a presença. Mesmo assim, quando virgulo evito esta espécie de sentimento de privação que quem está dormente necessita para sentir. Hoje sentimos pouco o ter simples. Gostamos de quem nos priva de sentimentos nobres, preferimos as prisões. Estes desenhos são a simplicidade livre. A vírgula plástica do meu caminhar, dos meus escritos em branco, dessas folhas desejosas de receber a cor.Conheci um senhor que usava vírgulas a torto e a direito. Ele brincava visualmente com os textos e o leitor andava aos solavancos por essas páginas que vão ficando para trás. Mas eu talvez prefira esta espécie de escrita enfática que nos provoca calafrios e marca as camadas da nossa sensibilidade. Que nos pára, que nos questiona.Hoje virgulo por detrás daquele estendal que acolhe tecidos já velhos, virgulo até não querer mais, até ver a cor intensa que me desperta sensações várias debaixo de uma folha de papel bem fina.Sim, António, eu sei que a vírgula marca pausas e inflexões, enfatiza e separa; falamos de ritmo, de plasticidade. Agora acrescentei um ponto e virgula! Inteligente esta ênfase da vírgula, não achas? Inteligente o lilás, o azul e o verde que dizem o que não sei escrever.

 

extraído de “Lídia e António”

Quero ir a casa do António mas sei que as minhas pernas cansadas já não sobem a colina deixada para trás num momento de hesitação. Sendo assim, acho que vou a casa do Manuel, que perdeu as botas depois de ter descoberto meio mundo. Desisti. Não há desistências, há reajustes porque há golas que deixam a entretela sair pela cosedura do tecido. É a aridez que nos puxa os cordéis, até lá não somos alguém, até lá não tocamos nenhuma música. Até lá não pisamos nenhuma lava quente nem fomos ao fundo de qualquer corpo enformado. O Manuel, que eu muito admiro, arriscou perder as botas e perdeu-as embora querendo ganhar um lugar no pedestal do mundo. Mas é sem botas que andamos ligeiros. Eu só descobri o que não vejo nem toco, quando descalcei os calços que tinha atados nos tornozelos. E assim vamos, vamos sempre à beirinha do precipício, vamos sempre às cegas, cheios de vertigens, e não fazemos perguntas. Fazemos o que podemos. Vivemos como podemos. O Manuel tem, desde sempre, as suas angústias inexplicáveis mas desde que perdeu as botas elas são de outra natureza, porque a sua vida agora tornou-se cortante. Não há conforto. Estamos sempre de coração hirto. É por isso que eu queria ir a casa do António; lá deleitar-me-ia no prado florido e seria cravada ironicamente por raios solares calorosos.

 

I lay down on the rickety table of my life. There I laid down whole and a hot liquid leaked from my broken body. From the Wall clock synchronised voices echoed, seeming to me empty of any necessary words. I felt, like those that looking at a full meal, wish for warm dishes sadly made and I let myself wait for I knew not what. At sunrise my whole body had poured under the table lit by the sunlit morning. I caught the pieces and joined them together with the unprecedented confidence of heroes. With all the mature hope that warms the soul, I flew over the dream that accompanies us, sometimes, if properly chained.

Coloquei-me sobre a mesa esconsa da minha vida. Nela me posei toda e um líquido quente escorreu do meu corpo partido. Do relógio de parede soltaram-se vozes síncronas que me soaram nuas de palavras necessárias. Senti, como aqueles que olham uma refeição farta, o desejo por quentes pratos enformados melancolicamente e deixei-me ficar numa espera de quem não sabe porquê. Ao nascer do dia o meu corpo tinha escorrido inteiro por baixo da mesa iluminada pela manhã solarenga. Peguei as partes e uni-as com a confiança do herói inaudito. Unida de toda a esperança madura que nos aquece a alma sobrevoei o sonho que nos acompanha por vezes, quando devidamente acorrentado.

Inscribed not knowing why, inscribed of a strange nature, inscribed before the very inscription that only late is recognized. The doubt that exists when searching before the inscription becomes ours. The doubt not matured by a destiny’s intuition, not about facts but emotions. It is not doubt but inscription unawareness, it is not doubt but intuition absence. Only in the centre of the inscription we can nullify duality, the duality that exists when counter-destiny strength operates and it always operates while counter-destiny has no shape and no name.

Inscrita sem saber porquê, inscrita de uma natureza estranha, inscrita antes da própria inscrição que apenas muito tarde se conhece. A dúvida que existe quando se procura antes da inscrição nos pertencer. A dúvida não maturada na intuição de um destino, não de factos mas de emoções. Não é dúvida é desconhecimento da inscrição, não é dúvida é ausência de intuição interior. Só no centro da inscrição podemos anular a dualidade, a dualidade que existe quando a força do contra-destino actua, e actua sempre, enquanto esse contra-destino não tem forma nem nome.

Dark red stains, brownish, in overlapping shapes, bodily, visceral, that stick to my skin, to my touch and there, then, the vibration happens. A spasm, a thick goo leaking onto those already there. It twists, mates, the stain is warm, round, penetrates the skin and touches the spirit.

Manchas vermelho escuro, acastanhado, em formas sobrepostas, corpóreas, viscerais, que se me agarram à pele, ao sentido do tacto, e aí sim dá-se a vibração. Um espasmo, uma gosma pingando sobre as que já lá estão. Contorce-se, acasala, a mancha é quente, é redonda, penetra na pele e toca o espírito.

Marta